aroma

Meu nariz traz com ele lembranças que muitas vezes o resto do corpo achava ter esquecido. Dia desses, tomando um café na mesa da rua, senti um cheiro de Buenos Aires. Não era o café, nem a rua, nem o calor. Era tudo isso junto e mais alguma coisa que, por um segundo, trouxe a lembrança incontestável de caminhar pela Avenida Santa Fé no verão escaldante. Meu nariz adora associar cidades aos aromas. Associações essas que geralmente não sei explicar.

Outras lembranças olfativas são bem mais claras. Guardo nas narinas memórias aromatizadas da infância. O milho cozido. É sempre uma esquizofrenia quando passo pelos carrinhos de milho, tão paulistanos, e o nariz avisa certeiro: cheiro de “Água Mineral”, o clube que minha família frequentava há uns vinte anos atrás quando eu não sabia que São Paulo existia e nem todo o resto do mundo. Passávamos a manhã toda nadando, correndo em volta da piscina, pulando, gritando e tudo mais que uma criança saudável faz pra gastar energia. Quando a fome começava a apertar e ainda faltava muito para a hora do almoço, a criançada pegava uns trocados e corria para a fila do milho. Vinha uma espiga fumegante enrolada na palha e a gente passava a manteiga que ficava em potes no balcão. É uma lembrança nítida que carrego na ponta do nariz.

Café coado lembra minha mãe, cuzcuz de milho lembra o meu pai, churrasco lembra fim de semana, dama da noite lembra verão, manga e cajú lembram a casa que cresci, e por aí vai.

No nariz também carrego a lembrança de diferentes períodos da vida. Senti um cheiro outro dia que me levou para o meu primeiro endereço depois que saí da casa dos meus pais. O aroma, que de alguma forma me lembrava àquele apartamento, desenterrou da memória uma série de experiências, sensações e estado de espírito daquele momento. Era algo como hamburguer com miojo de galinha e suco de pêssego de caixinha. Esse era o maior hit da minha cozinha naqueles tempos.

As narinas também guardam em algum canto o cheiro dos amores que muitas vezes já esqueci. Nunca os perfumes, mas o cheiro de cada um que se concentra atrás da orelha, o aroma do hálito, do suor, ou da roupa usada. Esses ficam lá, adormecidos, e quase nunca voltam a ser lembrados, mas sei que estão lá.

Texto aromático da jornalista Clarissa Amorim

Foto de David Zilber

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